Amamentar

O sítio do Aleitamento Materno para cidadãos e profissionais de saúde

  

Um olhar psicológico sobre o aleitamento materno

A importância do aleitamento materno: do passado aos nossos dias

Não nos restam hoje em dia dúvidas quanto ao facto do tipo de alimentação escolhido, se pelo biberão, se ao peito, constituir um factor determinante na qualidade da interacção da relação mãe-bebé.

No entanto, se recuarmos um pouco na história podemos verificar que a questão do aleitamento materno tem vindo a ser entendida de diversas formas ao longo dos tempos. Durante muitos e muitos anos era indecoroso, nomeadamente nas classes mais abastadas, que as mães criassem os seus filhos, e estava fora de questão a sua amamentação. Até aos finais do século passado, em muitos países europeus, o aleitamento materno estava e permaneceu a cargo de amas-de-leite. Hoje em dia esta situação já não ocorre, mas continuam a existir factores, quer sociais, quer psicológicos, para alguma ocorrência de aleitamento artificial.

O ponto de vista psicológico

Do ponto de vista psicológico (por vezes indissociável do sociológico), encontramo-nos perante uma tendência para a dessexualização das funções procriadoras da mulher, com o aumento de partos induzidos e a administração de medicamentos para a eliminação da produção do leite. Tem-se vindo a chamar a atenção para os impactos destes procedimentos, no desenvolvimento do bebé e na qualidade da relação e interacção com ele. Convém salientar que não é só a criança que se prejudica com esta situação, pois também a mãe acaba por sofrer, do ponto de vista psicológico, consequências negativas ao renunciar ao aleitamento do seu filho.

O aleitamento materno: quando o parto é sentido como uma separação abrupta

A mulher tem, através da experiência da gravidez e do parto, a oportunidade de elaborar traumas antigos relacionados com as suas próprias experiências infantis, o mesmo ocorrendo com a amamentação. Para além das importantes contracções do útero, que contribuem para uma mais rápida e saudável recuperação do parto, a amamentação tem uma importante função na reparação da separação entre a mãe e o bebé, ajudando assim a superar o que muitos autores entendem como o trauma do nascimento. Esta separação provocada pelo nascimento pode ser vivenciada por muitas mulheres como uma perca abrupta, como uma separação traumática entre ela e o bebé. Através da vivência do aleitamento materno e da intimidade estabelecida, a separação vai ocorrendo progressivamente, ajudando mãe e lactante a superar paulatinamente, contrastando com a repentina e abrupta separação que ocorre no momento do parto.

O impacto do aleitamento materno no desenvolvimento da criança

Alguns autores referem a ocorrência de perturbações psicológicas em adultos que na infância foram privados de uma alimentação que os envolvesse numa relação próxima com a mãe. Outros estudos remetem ainda para a importância dos efeitos benéficos do aleitamento materno na qualidade da interacção mãe-bebé que se repercute positivamente noutros contextos interactivos. Em situação de interacção livre ente mãe e bebé, as mães que amamentam ao seio os seus filhos exibem um maior número de iniciativas positivas, ao nível do jogo, no contacto físico e nas expressões de afecto. Os bebés destas mães, por seu turno, revelam um maior número de contactos físicos e de vocalizações e menor número de expressões de zanga nas interacções com a mãe.
Com as célebres experiências em Wisconsin, com os macacos Rhesus e as mães feitas de pano e de arame, pode-se concluir que o factor mais organizador e protector não era o alimento em si, mas o aconchego e o contacto físico proporcionado pelas mães de pano.

O ajustamento do bebé ao seio é extremamente importante. Nesse ajuste é fundamental que a mãe dê atenção ao ritmo do bebé e da sua sucção, pois é importante não só a alimentação em si, sob o ponto de vista nutritivo ou como protector de infecções, mas também a sua satisfação oral. Esta satisfação, ou a sua carência, encontra-se relacionada com algumas problemáticas da vida adulta.

Outro aspecto igualmente importante é o desenvolvimento da comunicação e dos processos de pensamento que se encontram intimamente relacionados com a relação mãe-bebé. O aleitamento materno constitui uma experiência que poderá promover a qualidade desta interacção a um nível muito precoce.

Quando surgem dúvidas, receios e tabus

No entanto, torna-se necessário entender as razões porque, por vezes, algumas mães apresentam dificuldades na amamentação. Apesar da produção de leite ser um fenómeno fisiológico, este entra em linha de conta com aspectos psicológicos que o podem condicionar. Na verdade, muitos dos inconvenientes reais do aleitamento materno são de carácter psicológico, sendo imprescindível uma compreensão psicológica destas dificuldades. Muitas vezes, elas revelem-se fisiologicamente, como por exemplo as fissuras ou o encaroçar do leite. Frequentemente, estes entraves ou impedimentos encontram-se relacionados com alguns transtornos ligados à própria infância da mãe e com as dificuldades face à própria maternidade. Deste modo, é de extrema importância uma compreensão psicodinâmica, que permita aos técnicos que pretendem ajudar uma mãe a amamentar o seu filho, entender que essa mãe pode estar a reviver inconscientemente a sua própria experiência passada enquanto criança.

Algumas mulheres podem também experimentar, no decorrer das mamadas, algumas sensações voluptuosas, que são normais, mas que por vezes as perturbam e as fazem sentir culpabilizadas. Este é um aspecto que por vezes inibe as mães de amamentarem, nunca o referindo aos técnicos por vergonha ou inibição. De facto, o seio é uma parte do corpo da mulher que tem uma dupla função - por um lado é um órgão erógeno e por outro é um órgão nutritivo e alimentador.

Frequentemente as mães conseguem ultrapassar e sobrepor-se a estas antigas questões e outros conflitos do passado, constituindo a amamentação, nesses casos, um meio de reparação e resolução de frustrações e ressentimentos passados. No entanto, será inconveniente um aleitamento materno imposto e mantido contra a vontade da mulher, embora muitas das resistências assentem nas questões acima referidas e que poderão ser superadas com a ajuda de técnicos de saúde sensíveis e informados.

Maria da Conceição Teixeira
PSICÓLOGA

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Bibliografia
  • Brazelton, T.; Cramer, B. (1989). A Relação Mais Precoce – os pais, os bebés e a Interacção precoce, Terramar Editores, Lisboa.
  • Bruschweiller-Stern, N.; Stern, D. (1998). O Nascimento de Uma Mãe, Porto Âmbar.
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  • Pincus, L.; Dare, C. (1987). Psicodinâmica da Família, Artes Médicas, Porto Alegre.
  • Raphael-Leff, J. (1997). Gravidez – A História Interior, Artes Médicas, Porto Alegre.
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